“Tudo o que nós experienciamos – pessoas, lugares, etc – consiste de aparências – imagens, sons, aromas, sabores, sensações táteis, lembranças e outros fenômenos mentais – tudo surge no espaço da nossa própria consciência, não estão lá fora em algum outro lugar. Nós nunca pulamos a cerca para experienciar algo que esteja fora do espaço da nossa própria consciência.

Mas é lógico que nós não estamos à deriva flutuando em um mar de aparências – nós damos sentido ao mundo à nossa volta, nós damos sentido à nossa própria mente, às outras pessoas, ao meio ambiente, à situação política e assim por diante. Com respeito às pessoas, nós não apenas tomamos consciência das aparências relacionadas a elas mas nós as conhecemos, nós as pintamos com o nosso próprio repertório, com a nossa própria paleta de cores. A forma como percebemos outras pessoas, a forma com as interpretamos não apenas como um conjunto de aparências, mas como seres sencientes, nós as pintamos com as cores de que dispomos. Quando eu encontro o Dalai Lama – eu o conheço há 47 anos – tudo o que “eu” sei sobre o Dalai Lama é a minha interpretação colorida com a minha paleta. É a versão do Alan Wallace sobre o Dalai Lama, e eu não consigo ultrapassar isso. Se eu visse o Dalai Lama da perspectiva do Dalai Lama eu possivelmente teria um ataque do coração. Eu não acho que daria conta disso, de verdade. Eu tenho uma forte intuição de que o Dalai Lama teve experiências que eu nem sou capaz de imaginar. Ou seja, o Dalai Lama que eu conheço é o Dalai Lama que eu consigo imaginar. Eu o construí. Mas ele é o melhor de mim. E assim com acontece com todas as outras pessoas que eu conheço. Na história da humanidade, há pessoas que se envolveram com o mal de uma maneira que não sou capaz de imaginar, ao menos com base na experiência que tive nesta vida. O máximo que posso fazer, por exemplo, é dar a minha versão de Hitler, ou de outros tiranos, ditadores, psicopatas ou sociopatas. Eu não sou sociopata. Não sou capaz de pintá-los. Posso apenas imaginá-los da maneira mais maldosa que eu mesmo sou capaz de ser. Mas todos são eu – não consigo pular essa cerca e vê-los a partir de suas próprias perspectivas.”

Lama Alan Wallace, Retiro em Santa Barbara, 7 de janeiro de 2018
Tradução livre de Jeanne Pilli

A íntegra desse ensinamento está neste link.