“Todos nós tomamos atitudes. Algumas delas estão de acordo com a realidade e nos apoiam durante todo o curso de nossas vidas. Outras estão desalinhadas com a realidade e nos causam problemas desnecessários. A prática do budismo tibetano não é apenas sentar-se em meditação silenciosa; trata de desenvolver uma nova atitude que alinha nossas mentes com a realidade. Atitudes precisam de ajustes, como vértebras da coluna que se deslocam. Dentre os vários tipos de práticas no budismo tibetano, neste livro explicarei um tipo de treinamento mental tibetano chamado lojong, que se destina a mudar nossas atitudes de tal forma que a mente se torne uma fonte pura de alegria, em vez de um poço sombrio de problemas, ansiedades, prazeres passageiros, frustrações, esperanças e medos. A palavra tibetana lojong é formada por duas partes: lo, que significa atitude, mente, inteligência e perspectiva; e jong, que significa treinar, purificar, remediar e liberar. Portanto, a palavra lojong poderia ser literalmente traduzida como treinamento da atitude, mas eu prefiro me ater à tradução mais comum – treinamento da mente. 

No último milênio, os lamas tibetanos criaram diversos lojongs, mas o mais amplamente ensinado e praticado de todos os lojongs tibetanos é o que se baseia nos ensinamentos de um sábio budista indiano chamado Atisha (982-1054), que viveu do fim do primeiro milênio depois de Cristo ao início do segundo. Atisha levou para o Tibete uma tradição oral de ensinamentos lojong baseados em instruções que lhe foram transmitidas pela linhagem dos mestres budistas indianos Maitriyogin, Dharmarakshita e Serlingpa. Esta tradição oral possivelmente representa a primeira prática explicitamente chamada de lojong, e é provavelmente a mais praticada no budismo tibetano. Inicialmente, este treinamento era passado oralmente aos alunos considerados suficientemente inteligentes e motivados o bastante para fazer bom uso dele. Apenas cerca de um século após a morte de Atisha, esse treinamento secreto foi registrado na forma escrita e se tornou mais amplamente disponível nos monastérios e eremitérios, instituições específicas do Tibete em que as atitudes eram corrigidas. Essa demora explica as pequenas diferenças entre as versões do texto de que dispomos hoje.

Por séculos, nós, no Ocidente, temos nos perguntado se existe vida inteligente em outros lugares do universo. Se é que existem seres mais avançados e inteligentes lá fora, o que eles teriam para nos ensinar? O que eles aprenderam e nós não? Seguindo um raciocínio similar, podemos perguntar: existe vida inteligente em nosso planeta fora da nossa civilização euro-americana? É claro que perguntar isso parece tolice, mas ainda assim vale a pena, já que ainda persiste em nossa sociedade uma atitude de que sabemos mais sobre tudo do que qualquer geração anterior e mais do que qualquer outra sociedade atual “menos desenvolvida”. É preciso um salto etnocêntrico de fé bastante grande para engolir isso, mas muitas pessoas conseguem. A civilização indiana de mil anos atrás, da época de Atisha, desenvolveu-se de forma muito pouco influenciada pela civilização europeia; a civilização tibetana, durante mais de dois milênios, não recebeu quase nenhuma intervenção do Ocidente até meados do século XX. Ironicamente, o primeiro grande encontro dos tibetanos com o pensamento ocidental ocorreu durante a invasão de sua terra natal pelos comunistas chineses em 1949, que os submeteram à doutrina econômica do marxismo e ao materialismo científico.

Teriam as civilizações indiana e tibetana feito alguma grande descoberta que nós não fizemos e teriam elas algo a nos ensinar? Trataremos dessas questões neste livro, abordando um conjunto milenar de aforismos que representa grande parte da sabedoria da Índia e do Tibete antigos. Se esses aforismos tocarem um acorde de sabedoria em nós, cujas vidas se estendem do final do segundo milênio ao início do terceiro, significa que essa sabedoria não é unicamente oriental ou ocidental, nem antiga ou moderna. Será um tipo de sabedoria que atravessa os tempos e as barreiras culturais, algo universal que provém e que fala ao coração e à mente da humanidade.

No último milênio, o budismo tibetano manteve sua vitalidade, de geração a geração, com os mestres transmitindo os comentários orais de “textos originais” tradicionais, como o Treinamento da Mente em Sete Pontos. Os textos-raiz preservam a profundidade e a sabedoria dos ensinamentos, e os comentários orais conectam esses textos às experiências e visões dos praticantes de cada geração. Na explicação do texto que ofereço aqui, utilizarei o comentário tibetano mais antigo que consegui encontrar, composto por Sechil Buwa, discípulo direto de Chekawa Yeshe Dorje (1101-1175), o primeiro a escrever sobre esse treinamento da mente. Chekawa Yeshe Dorje recebeu a transmissão desse ensinamento de Sharawa, e a linhagem antes dele chega a Langri Thangpa, Potowa, Dromtönpa e Atisha. Utilizarei também um comentário bem recente intitulado Enlightened Courage: An Explanation of Atisha’s Seven Point Mind Training, do falecido Dilgo Khyentse Rinpoche, um dos maiores mestres tibetanos de meditação do século XX.

O professor de quem recebi o comentário oral desse treinamento era um tibetano culto, humilde e compassivo chamado Kungo Barshi. Naquela época, 1973, eu vivia em Dharamsala, Índia, e havia muitos lamas eruditos a quem eu poderia recorrer em busca dessa instrução. Mas fui atraído particularmente por Kungo Barshi por várias razões. Naquele tempo, ele era o instrutor-chefe de medicina tibetana no Instituto Tibetano Astro-Médico e era reconhecido por dominar vários campos do conhecimento tibetano tradicional. Mas ele não era apenas um erudito excepcional. No Tibete, como membro da nobreza, possuía várias propriedades e dedicava-se à vida acadêmica, enquanto sua esposa cuidava, principalmente, dos assuntos práticos da gestão de seu patrimônio. Mas quando os comunistas chineses invadiram o Tibete e alvejaram especialmente os aristocratas para aprisionar e torturar, ele, a esposa e um dos filhos fugiram para a Índia. Os outros filhos permaneceram na terra natal, e acabaram sendo mortos pelos chineses; o filho que fugiu com eles para o exílio também teve um fim trágico. Kungo Barshi viveu uma adversidade seguida de outra mas, ainda assim, enquanto transmitia o ensinamento, ele me disse: “Pessoalmente, descobri que a invasão chinesa do Tibete foi uma bênção. No Tibete, antes desse cataclismo, eu dava pouco valor às coisas e a minha prática espiritual era esporádica. Agora que fui forçado ao exílio e que perdi tanto, minha dedicação à prática cresceu enormemente e encontrei um contentamento que jamais havia sentido.” Poucas vezes encontrei alguém cuja presença exsudava tanta serenidade, um bom humor tão calmo e tanta sabedoria quanto ele. Para mim, ele era a corporificação viva da eficácia desse treinamento mental, e sua inspiração tem permanecido comigo desde então.

Ao acrescentar meus comentários a esse texto, abordei várias questões práticas e teóricas com as quais nos deparamos unicamente no mundo moderno. Este livro baseia-se em uma série de conferências públicas que fiz em Santa Bárbara, Califórnia, durante os anos de 1997 e 1998. As gravações dessas conferências foram transcritas e editadas pela minha querida amiga Lynn Quirolo, com quem tenho um profundo débito de gratidão; fiz então as revisões finais às transcrições editadas. Tentei ser fiel aos ensinamentos originais que recebi em todos os momentos, ao torná-los totalmente contemporâneos para as pessoas que vivem em um mundo tão diferente daquele do Tibete tradicional. Se ao menos uma fração da sabedoria e da inspiração de Atisha, Sechil Buwa, Kungo Barshi e Dilgo Khyentse Rinpoche for transmitida aos leitores deste livro, nossos esforços terão produzido bons frutos.”

Alan Wallace, Santa Bárbara, Califórnia
Verão de 2000