Há um ditado que é o princípio subjacente do Tonglen e uma das práticas dos aforismas: “Ganho e vitória aos outros, perda e derrota para mim mesmo”. A palavra tibetana para o orgulho ou a arrogância, que é nga-gyal, é literalmente em inglês “eu- vitorioso. “Eu primeiro. Ego. Esse tipo de atitude “eu-vitorioso” é a causa de todo sofrimento.

Em essência, o que esse pequeno ditado está dizendo é que palavras como vitória e derrota estão completamente entrelaçadas com a forma como nos protegemos, como guardamos nossos corações. Nossa sensação de vitória significa que guardamos nosso coração o suficiente para que nada tenha acontecido, e para que pensemos que ganhamos a guerra. A armadura ao redor do nosso ponto frágil – do nosso coração ferido – está agora mais fortalecida, e nosso mundo se estreitou. Talvez nada consiga penetrar a armadura para nos assustar durante uma semana inteira, mas nossa coragem está enfraquecendo, e nossa habilidade de cuidar dos outros está ficando completamente obscurecida. Ganhamos realmente a guerra? Por outro lado, nossa sensação de ser derrotado significa que algo penetrou a armadura. Algo tocou nosso ponto frágil – essa vulnerabilidade que mantivemos blindada durante anos – algo nos tocou. Talvez tenha sido o toque de uma borboleta, mas nunca fomos tocados assim antes. Esse ponto é tão sensível! Por nunca termos sentido isso antes, agora vamos comprar cadeados, couraças e armas para que nunca mais sintamos isso novamente. Faremos qualquer coisa – calçaremos sete pares de botas que se encaixam uma na outra para que não precisemos sentir o chão, doze máscaras para que ninguém possa ver nossa verdadeira face, dezesseis conjuntos de armaduras para que nada possa tocar nossa pele, sem contar com o que faremos para que deixem o nosso coração em paz!

Essas palavras derrota e vitória estão tão ligadas à forma como ficamos aprisionados. A verdadeira confusão é causada por não sabermos que dispomos de uma riqueza ilimitada, e a confusão se aprofunda cada vez que concordamos com essa lógica de ganhar / perder: se você me atingir, será uma derrota e, se eu conseguir me blindar e não for tocado, será uma vitória.

Se percebêssemos a nossa riqueza essa desorientação e confusão acabariam. Mas a única maneira de fazer isso é permitir que as coisas se desmoronem. E isso é o que mais tememos – a derrota final! No entanto, deixar as coisas se desmoronarem realmente deixaria o ar fresco entrar nesse porão velho e mofado do nosso coração.

Dizer “Perda e derrota para mim” não significa tornar-se um masoquista: “Chute minha cabeça, me torture e, pelo amor de Deus: que eu nunca seja feliz”. O que significa é que você pode abrir seu coração e sua mente e saber como é a derrota. Você se sente limitado, você tem indigestão, você acha que está muito gordo ou que é muito burro. Você diz para si mesmo, “Ninguém me ama, eu sempre fico pra trás. Eu não tenho dentes, meu cabelo está ficando grisalho, minha pele está manchada, meu nariz escorre…” Isso tudo está na categoria de derrota, a derrota do ego. Nós nunca queremos ser quem somos. No entanto, nós nunca conseguiremos nos conectar com as nossas riquezas fundamentais, enquanto continuarmos engolindo essa propaganda que diz que devemos ser outra pessoa, que temos que ter um cheiro diferente ou que temos que ter uma outra aparência.

Por outro lado, quando você diz “Vitória aos outros”, em vez de querer mantê-la só para si mesmo, surge a sensação de compartilhar todos os aspectos deliciosos de sua vida. Você de fato perdeu um pouco de peso. Você gosta da maneira como você é quando se olha no espelho. De repente você sente que tem uma boa voz ou alguém se apaixona por você ou você se apaixona por outra pessoa. Ou as estações mudam e isso toca o seu coração, ou você começa a notar a neve em Vermont ou a maneira como as árvores se movem ao vento. Com tudo o que acontece, você começa a desenvolver uma atitude de querer compartilhar em vez de querer guardar só para sí ou de ter medo de perder.

Talvez esses aforismos do Treinamento da Mente sejam desafiadores. Eles dizem coisas como “Não fique com ciúmes”, e você pensa: “Como eles sabiam?” Ou “Agradeça a todos” e você se pergunta como fazer isso ou por que se preocupar com isso. Alguns aforismos, como “Sempre medite sobre tudo o que provoca ressentimento”, obrigue você a ir além do senso comum. Esses aforismos nem sempre são o tipo de coisa que você gostaria de ouvir, e muito menos serão inspiradores, mas se trabalharmos com eles, eles se tornarão a nossa respiração, a nossa visão, o nosso primeiro pensamento. Eles se tornarão como os perfumes que sentimos e os sons que ouvimos. Podemos deixá-los permear todo o nosso ser. Esse é o ponto! Esses aforismos não são teóricos ou abstratos. Eles falam exatamente sobre quem somos e o que está acontecendo conosco. Eles são completamente relevantes para a forma como experienciamos as coisas, como nos relacionamos com o que ocorre em nossas vidas. Eles dizem respeito a sobre como nos relacionarmos com a dor e o medo, o prazer e a alegria, e como essas coisas podem nos transformar profundamente e completamente. Quando trabalhamos com os aforismos, a vida comum se transforma no caminho para o despertar.

 

Chödrön, Pema. Start Where You Are: How to accept yourself and others. Tradução livre de Jeanne Pilli.