“É possível que alguns de nós, em algum momento, possamos reunir condições internas e externas favoráveis para nos tornarmos iogues e nos dedicarmos exclusivamente a essas práticas com a aspiração de atingir o despertar nesta mesma vida. Mas para a maioria, essa não é uma opção neste momento. Muitos têm compromissos que são legítimos e nem um pouco triviais – cuidar de pais, filhos, companheiros e assim por diante. Pode ser que, conforme a vida se transforma, tudo se simplifique à nossa volta e por fim tenhamos tempo livre para nos dedicarmos exclusivamente à prática. Mas enquanto isso não acontece, o que é possível neste momento para qualquer um de nós é ter um plano, tomar uma resolução de saturar a nossa vida com o Darma, como o óleo que, quando derramado sobre o papel, envolve cada fibra desse papel ou, para usar uma clássica metáfora do budismo, como o óleo de gergelim satura toda a semente do gergelim. E assim, se morrermos amanhã, daqui a uma semana ou daqui a dez anos, morreremos sem arrependimento. Esse seria um bom plano. Nesse caso, a frase “não tenho tempo para praticar” não faria o menor sentido. Seria o mesmo que dizer “tenho muita coisa para fazer; não tenho tempo para respirar agora.” O Darma não deve ser tomado nas mãos e colocado de lado como se fosse um objeto qualquer. Por isso quero plantar aqui essa semente do Treinamento da Mente em Sete Pontos. Se vocês entenderem o que significa realmente a prática do Darma, vocês nunca dirão “estou muito ocupado para praticar”.  Contanto que esteja respirando, haverá sempre uma prática a ser feita. Sempre! Talvez, de vez em quando, em momentos em que as mandalas interna e externa se alinharem – como quando as nuvens se abrem no céu e o sol brilha sem nenhum impedimento – vocês possam simplificar radicalmente a vida durante um final de semana, um mês, seis meses, dez ou quinze anos, e se dedicar a atravessar a própria mente e de fato entrar no caminho irreversível até a iluminação… Se a motivação de cultivar a bodicita e o comprometimento com o Darma estiverem presentes, a mandala interna se transformará e as condições externas virão ao seu encontro.”

Lama Alan Wallace, Santa Barbara, janeiro de 2017